6 autores

Esta coletânea de textos literários procura não deixar pedra sobre pedra. Ou melhor, arremessa concreto contra concreto. A prosa e a poesia convidam o leitor a conhecer outra Brasília, menos midiática, menos sistemática, uma cidade dividida em três setores: o arcaico, o moderno e o futuro incerto.

Na memória-homenagem aos 50 anos da capital, seis autores captam fatos, falas, ashes. Em alta fantasia, fisgam a realidade pelo contraste entre o plano e a prática. A arte sabe que esse lugar certinho – enquadrado dentro de si – ganha valores inusitados quando ocupado por naturais instabilidades humanas.

O poeta Nicolas Behr transita entre o passado e o futuro, descontente com a atual situação da cidade, tomada pelo horror da ocupação política. Simples e sintético, Behr quer a destruição que gera renascimento.

Pedro Biondi, entre versos e uma prosa com jeito de crônica, mapeia setores afetivos na invenção de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Em franco diálogo com Behr, brinca em meio a setores, siglas e solidões.

Liziane Guazina entra em dramas familiares com desenvoltura. Não lhe escapa nem o golpe militar que ainda mancha a alma da superquadra nem os meandros burocráticos da vida dividida em blocos sociais.

Para André Giusti, uma boa maneira de ver a cidade é o contraste com o que está à sua volta, mesmo estando no corredor. A ficção sai, pega a estrada em texto conversível (que nunca amarela) e retorna com tiros certeiros.

José Rezende Jr. dá voz aos que foram alijados da sociedade e enfrentam, na alma do dia-a-dia, a ausência da participação no poder, qualquer poder. Em textos mínimos, os trabalhadores ganham alma máxima.

Fernanda Barreto examina paixões e mortes. Procura dar naturalidade à nudez num Plano Piloto tão silencioso quanto beiruteano. Em plena seca, a literatura se faz primavera e chora e sorri e passeia e ama sem pudor.

Brasília, motivo da união destes textos, se embrenha na literatura dando a cara a tapas de verdade ou olhando de soslaio o mundo que se desenrola em seu corpo de urbanismo e arquitetura. Explícita em cena ou obscena, ela aponta o teclado contra a indiferença e a favor da multiplicidade.

Eis o maior desao dos escritores e o prazer na imaginação dos leitores.

Sérgio de Sá

André Giusti
André Giusti é carioca, nasceu em maio de 1968 e 30 anos depois veio para Brasília. É autor de Voando pela Noite (até de manhã), A solidão do livro emprestado e A liberdade é amarela e conversível, (7Letras) e Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Basília (LGE), todos de contos, mas se arrisca também na crônica e na poesia. É jornalista e mantém o blogue www.andregiusti.com.br/blog/

Fernanda Barreto
Fernanda Barreto nasceu no verão de 1982, no Rio Grande do Sul. Mora em Brasília desde 2003, quando passou a  admirar ainda mais a primavera. É jornalista, mas seu sonho profissional é ser leitora. Tem um batuque no peito, acredita no amor, aprende com as pessoas e vê poesia nas coisas. Daí, escreve. Publica quase tudo no blogue:
http://transitivaedireta.blogspot.com

José Rezende Jr.
José Rezende Jr. embarcou num pau de arara em Aimorés (MG) e chegou ao cerrado em 1959 para construir Brasília. Na verdade, ele nasceu em 1959 e só chegou em 1987, quando a cidade já estava construída. Na verdade, como diz seu personagem, ainda falta tanta coisa pra construir… O fato é que aqui José Rezende Jr. construiu carreiras jornalística e literária. Foi repórter do JB, IstoÉ, O Globo e Correio Braziliense e escreveu dois livros: A Mulher-Gorila e Eu perguntei pro velho se ele queria morrer. Aqui também construiu matilha: tem mulher, cachorro e gato e é feliz para sempre.

Liziane Guazina
Liziane Guazina tem dupla identidade: em Brasília, é gaúcha, e na terra natal, no Rio Grande do Sul, já é considerada ‘estrangeira‘, isto é, brasiliense. Também é jornalista e professora de Comunicação na Universidade de Brasília. Nos últimos anos, tem publicado em coletâneas e sites de literatura e de comunicação. É autora de Entre Facas e mais
alguns contos, lançado em 2009, e mantém o blogue http://entrefacas.blogspot.com

Nicolas Behr
Nicolas Behr nasceu em 1958, em Cuiabá, MT, vivendo em Brasilia desde 1974. Publica seus livros de poesia desde 1977. No ano seguinte, foi preso pelo DOPS, julgado e absolvido. Foi publicitário e hoje é produtor de mudas de espécies nativas, sendo especialista em palmeiras. Laranja Seleta – poesia escolhida – 1977 – 2007 – é seu primeiro livro lançado por uma editora, a Língua Geral. A cidade de Brasília constitui um dos temas da sua obra. paubrasilia@paubrasilia.com.br

Pedro Biondi
Pedro Biondi nasceu em 1976, em São Paulo, e tenta entender a capital dos setores desde 2005. É autor do livro de contos Cheiro de Leoa (Limiar, 2007) e mantém o blog www.pedrobiondi.wordpress.com. Jornalista, já atuou como repórter, editor e assessor de imprensa, além de ter publicado textos em diversos veículos. Seu coração hoje se encontra dramaticamente dividido entre a criação literária e os cliques fotográficos.



Fotos coletivas: Leopoldo Silva

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